Por Portal O Impacto 25 de maio de 2026
Uma série de assassinatos e o avanço de investigações da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo (MPSP) indicam um movimento até então considerado improvável pelas forças de segurança: o Comando Vermelho (CV), facção de origem carioca, está expandindo suas operações para dentro do estado de São Paulo, território historicamente controlado de forma hegemônica pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).
O reflexo mais visível dessa migração criminosa está nas estatísticas de violência. Em Ubatuba, no litoral norte paulista, o número de homicídios dolosos saltou de 13 em 2024 para 24 em 2025 — um aumento de quase 85%, impulsionado diretamente por execuções ligadas à disputa territorial entre os dois grupos.
Especialistas e investigadores apontam que essa nova configuração do crime organizado em São Paulo é explicada por três fatores principais.
Em seus mais de 30 anos de atuação, o PCC passou por uma profunda transição corporativa. De uma associação de detentos criada em Taubaté, a facção paulista se transformou em uma holding transnacional do crime, lavando dinheiro em redes de postos de combustíveis, empresas de transporte e no setor financeiro — movimentações que foram alvo da recente Operação Carbono Oculto.
Com o faturamento bilionário do tráfico internacional de cocaína (enviada via Porto de Santos para a Europa, África e Ásia), o varejo doméstico de drogas perdeu atratividade para a cúpula da organização.
"O tráfico interno dá mais trabalho e menos dinheiro. O risco de prisão é maior e gera custos com advogados e famílias de presos. No mercado internacional, o quilo da cocaína comprado a US$ 1.000 é vendido a 35 mil euros na Europa, podendo chegar a US$ 150 mil na Oceania", explica o promotor Lincoln Gakiya, integrante do Gaeco (MPSP).
Ao abandonar ou negligenciar pontos de venda locais (as chamadas "biqueiras") por considerá-los de baixa lucratividade, o PCC abriu vácuos geográficos que passaram a ser cobiçados e preenchidos por traficantes independentes e pelo Comando Vermelho.
As investigações mapearam que a atuação do CV em São Paulo se concentra em duas regiões com dinâmicas criminosas bastante distintas:
Zona de Transição (Vale do Paraíba e Litoral Norte): Em cidades como Ubatuba, Caraguatatuba, Cruzeiro e Bananal, o CV aproveita a proximidade geográfica com o Rio de Janeiro. Segundo o Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (Geni/UFF), a área não funciona sob a lógica de favelas dominadas por barreiras físicas e confrontos armados diários, mas sim pela cooptação de traficantes locais e início de práticas de extorsão. O PCC tentou reagir tardiamente para retomar biqueiras perdidas, gerando os picos de homicídios no final de 2025.
Interior Violento (Região de Piracicaba): No polo oposto, a aliança do CV é muito mais violenta. A facção carioca aliou-se a uma organização local conhecida como "Bonde do Magrelo", originária de Rio Claro. O grupo é marcado pelo uso de armamento pesado (fuzis) e o rastreamento tecnológico de rivais. Recentemente, a Polícia Militar e o MPSP deflagraram a operação Red Flag ("bandeira vermelha", alusão ao emoji usado pela facção nas redes) para desarticular células desse braço aliado ao CV em Rio Claro e Paulínia.
O terceiro pilar que explica a perda de controle absoluto do PCC em São Paulo é geracional. Pesquisadores e promotores alertam que os criminosos mais jovens que estão ingressando no mercado informal não compartilham da antiga ideologia de "luta contra o sistema penitenciário" ou opressão do Estado — marcas que consolidaram a liderança de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola.
A nova geração é movida exclusivamente pelo ganho financeiro rápido. Essa desconexão ideológica tem provocado o desrespeito a regras internas severas da cartilha do PCC:
Nas prisões: Registro de alta no número de agressões e homicídios em dias de visita (prática estritamente proibida pelo código de conduta tradicional da facção).
Nas periferias: Jovens têm descumprido ordens locais da "governança criminal", cometendo roubos nas quebradas e realizando manobras perigosas de moto ("chamar no grau"), desafiando os "salves" (decretos) emitidos pela liderança.
Paralelamente, os integrantes mais velhos do PCC enriqueceram e deixaram as periferias para residir em bairros nobres de classe média e alta, enfraquecendo a vigilância e a aplicação prática da disciplina que mantinha as comunidades sob um comando unificado.
Apesar das incursões do Comando Vermelho e do racha interno na cúpula da "Sintonia Final" do PCC, analistas criminais do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o próprio MPSP ponderam que o PCC ainda mantém a hegemonia econômica e estrutural no estado.
A situação atual é classificada como "embrionária", mas o monitoramento é considerado crítico: a última vez que São Paulo registrou uma guerra aberta entre quadrilhas pelo controle do tráfico foi na virada dos anos 2000, período que coincidiu com os maiores recordes históricos de homicídios do estado (35,27 por 100 mil habitantes em 1999, contra os atuais 5,46 registrados em 2025).
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