A história de Francisco José Monteiro Junqueira Neto ensina que a dependência química não começa no primeiro trago ou na primeira seringa, mas sim no solo emocional onde a vida é semeada. Nascido em 8 de janeiro de 1988, na cidade de Além Paraíba, Zona da Mata Mineira, Francisco cresceu em uma família tradicional e conhecida. Por fora, uma infância que poderia parecer comum; por dentro, um lar dilacerado pelos conflitos constantes da dependência química.

Foto: Francisco e sua mãe em meados de 2007, em sua primeira internação.
Desde muito pequeno, ele testemunhou a dor de crescer em um ambiente marcado pelo alcoolismo e pelo uso de cocaína dos próprios pais. As lembranças da infância eram trançadas por discussões frequentes, brigas intensas, crises provocadas pelas substâncias e uma profunda insegurança emocional. Seu pai, Túlio Junqueira, era produtor agropecuário e dono de supermercado. Na juventude, Francisco o ajudava no trabalho, mas a relação dos dois oscilava entre momentos de profundo carinho e períodos de forte conflito, especialmente quando o filho começou a reproduzir os mesmos comportamentos destrutivos que via em casa.
Ironicamente, esse mesmo lar também seria o palco da redenção. Sua mãe, Eliana Quintão, hoje ostenta 22 anos de sobriedade. Seu pai faleceu em recuperação após 19 anos de abstinência, tendo deixado o legado de cofundar um grupo de Alcoólicos Anônimos na região. Contudo, o impacto daquele ambiente já havia moldado a infância de Francisco. Curiosamente, suas duas irmãs mais novas cresceram sob o mesmo teto e jamais desenvolveram a doença — uma prova clara de que a dependência não é uma escolha, mas sim um transtorno multifatorial que envolve predisposição genética, neurobiologia, traumas e contexto social.
A dor precoce fez de Francisco um jovem reflexivo que buscava alívio na escrita. O papel e a caneta se tornaram seus primeiros "terapeutas". Ele se destacou pelo talento com as palavras e chegou a ser o 2º colocado nacional entre quase 11 mil participantes no concurso de poesia "Eu Sou o Samba" (2015), promovido pela Editora Litteris no Rio de Janeiro, além de publicar obra pela Editora Multifoco. Mas, enquanto a sensibilidade poética brotava, a doença invisível já avançava.
Ao contrário do que a maioria imagina, Francisco não começou no álcool ou no cigarro. Sua porta de entrada para um ciclo que duraria 24 anos foi a maconha, aos 13 anos de idade. Com o cérebro ainda em formação e o sistema de recompensa neurobiológico supersensível, a escalada foi inevitável. Da maconha passou para a cocaína, o LSD, o ecstasy e os abusos em festas e raves enquanto morava com os avós paternos — seu avô fora juiz de Direito em Três Rios (RJ).
À medida que a tolerância neuroquímica aumentava, a ilusão de controle dava lugar a quadros severos de depressão, insônia, ansiedade e um vazio existencial insuportável. Aos 18 anos, veio a primeira internação em uma comunidade terapêutica. Nos 12 a 13 anos seguintes, seriam ao todo 10 internações e passagens por 9 comunidades diferentes. O ciclo de manter-se abstinente por alguns meses e tentar voltar ao "uso controlado" de maconha ou álcool terminava sempre no mesmo destino: o reencontro com o crack, que ele havia conhecido no Rio de Janeiro em 2007.
Em 2015, o colapso atingiu o ápice. Francisco perdeu um patrimônio considerável, laços afetivos, a própria dignidade e a identidade. A falsa promessa de que "nunca chegaria às ruas" ruiu. Sem eira nem beira, ele viveu por aproximadamente quatro anos em situação de extrema vulnerabilidade, peregrinando por Muriaé (MG), Campos dos Goytacazes (RJ) e, finalmente, o centro de São Paulo, no coração da Cracolândia.

Foto: Francisco em Campos dos Goytacazes (RJ) em meados de 2017/2018.
Foram quatro anos consumindo crack diariamente. Ele pedia esmolas em semáforos e, no auge do desespero da doença, chegou a furtar latas de leite ninho em drogarias para tentar sobreviver — lembranças que carrega com dor e como testemunho de como o vício desfigura os valores humanos. Em Campos dos Goytacazes, sofreu uma agressão brutal: foi espancado a ponto de ter três costelas trincadas, fraturas na mão, no pé e um golpe de barra de ferro na cabeça que exigiu 13 pontos, além de 6 no supercílio. Em São Paulo, andava com duas facas na cintura na tentativa desesperada de defender a própria vida em meio a uma rotina de assassinatos, facadas, atropelamentos e surtos psicóticos. Viu dezenas de pessoas morrerem ao seu lado, incluindo a chocante imagem de um idoso com bolsa de colostomia falecendo por infecção generalizada em praça pública.
Durante todo esse pesadelo, a postura de sua família foi fundamental. Sua mãe mantinha uma regra clara, que na época ele não entendia, mas que foi sua salvação: "Se você quiser tratamento, estaremos aqui. Mas dinheiro para sustentar o uso de drogas, nós não vamos dar." Eles não financiaram a doença, mas deixaram a porta do amor aberta para o filho que quisesse se tratar.
Em meio às sombras da rua, Deus colocou uma luz no caminho de Francisco: um filhote de cachorro abandonado na praça de Muriaé, às 4h da manhã. Ele o pegou no colo e o batizou de Brown. Durante quatro anos, os dois dividiram tudo: o frio das calçadas, a escassez de comida e o calor do asfalto. Francisco cuidava do cão melhor do que de si mesmo. Quando o animal pegou cinomose, doença do carrapato e anemia grave, ele conseguiu ajuda por meio de protetores de animais para interná-lo no hospital veterinário. Rejeitou inúmeras propostas de vender ou trocar o cão por dinheiro ou drogas. Brown não era um animal de estimação; era a sua família e a âncora que não o deixava esquecer como amar.

Foto: Francisco brincando com Brown numa visita em 2019.
O ponto de virada aconteceu em meados de 2019. Sob uma chuva torrencial no meio do "fluxo" da Cracolândia, chorando e sem forças para resistir ao vício, Francisco olhou para o companheiro Brown completamente encharcado ao seu lado. Naquele instante, um despertar espiritual atravessou sua alma: "Nós não merecemos viver assim."
Ele pediu um telefone emprestado a uma comerciante e ligou para a mãe. Disse que não aguentava mais e pediu uma ambulância. Cumpriu a promessa de esperar no mesmo lugar. Quando o resgate chegou, Francisco não entrou na ambulância apenas para parar de usar drogas; entrou para permitir que sua vida fosse transformada de dentro para fora.
Ao se internar na última comunidade terapêutica, Brown foi com ele. O cão permaneceu um mês na instituição até ser acolhido com carinho por sua madrinha Márcia e seu segundo pai Beto, que cuidaram do animal durante todo o tratamento de Francisco.
Após concluir a internação, Francisco trabalhou durante anos em comunidades terapêuticas em São Paulo e viajava mensalmente de ônibus para reencontrar o cão e sua família em Minas Gerais. Ele havia recuperado sua dignidade, sua saúde e seus afetos.
Decidido a transformar sua dor em missão de vida, Francisco entendeu que a vivência prática precisava se somar à ciência. Mergulhou nos estudos e acumulou uma formação impressionante: são 1.628 horas em Psicanálise Clínica e Psicoterapia, mais de 600 horas de supervisão clínica, 700 horas de formação em Terapia Holística pela FEBRACT, dezenas de aperfeiçoamentos em Neurociência, Prevenção à Recaída, Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Transtornos de Personalidade, Ansiedade e Trauma, além de estar concluindo a graduação em Serviço Social com planos para mestrado e doutorado.
Há 7 anos atuando diretamente no atendimento a dependentes químicos e famílias codependentes, hoje o Terapeuta Francisco Junqueira atende pacientes de todo o Brasil e do mundo por meio de videochamadas, atuando diretamente da Zona da Mata Mineira. Ele não possui vínculo com clínicas específicas, o que lhe dá total isenção ética para orientar cada caso de forma individualizada.

Foto: Francisco em atendimento.
"Minha história nunca foi sobre drogas. Minha história é sobre esperança, recomeços e reconstrução. A prova viva de que ninguém está tão perdido que não possa ser alcançado quando a ciência, o tratamento adequado, a família, a fé e o desejo de mudar se unem", conclui o terapeuta.
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Que história linda me inspiro em você demais terminei o curso de terapeuta vou um dia ter todos os cursos possíveis e impossíveis na área meu sonho agora e arrumar emorego na área se Deus quiser parabéns são pessoas como você que tornam um mundo muito melhor que Deus continue ti abençoando nessa trajetoria
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