noticias380 O que não é consciência negra?

Colunistas

O que não é consciência negra?

Você sabe de fato o que significa consciência negra?

Publicada em 24/11/2025 às 11:17h - 235 visualizações - Dalgiza Rufino Marques


O que não é consciência negra?
 (Foto: Divulgação )



Hoje vou falar sobre o que não é consciência negra de acordo com o pensador sul-africano Steve Bico, no seu livro “Eu escrevo o que eu quero”  e que consolidou este importante conceito.  O conceito de consciência negra foi desenvolvido na África do Sul durante a luta dos negros africanos contra o regime racista do apartheide de pessoas negras. Apresentarei  algumas  situações que não tem nada a ver com consciência negra.

 

1ª SITUAÇÃO

Escolas que fazem dança africana, oficina de turbantes, música e pintura facial, mas não discutem o genocídio da juventude negra, a violência policial, saúde mental, epistemicídio, autoestima ou protagonismo negro. E o problema aqui não está em fazer as danças ou máscaras, obviamente, mas ignorar a realidade da população negra no Brasil e como essas pessoas ouvem falar de si mesmas dentro de uma escola. 

E por que que não é consciência negra? Porque isso é folclorização, um espetáculo estético desconectado da crítica estrutural. Se a ação não produz autonomia mental nem estrutura de poder, é puro entretenimento e não consciência negra.

 

2ª SITUAÇÃO

Empresas que fazem campanhas de novembro negro, mas têm em sua diretoria 95% de brancos e nenhuma

política interna antiracista,  ou comissões de diversidade que são criadas apenas para fotos institucionais, mas

que não têm orçamento ou capacidade de decisão, ou também contratações de negros apenas em áreas de atendimento ao público. Essa diversidade na vitrine, que na verdade demonstra branquitude no comando, ou então chefes brancos que usam funcionários negros para marketing racial, mas sem transformações reais no trabalho. Isto também não tem nada a ver com consciência negra.

 Mas por que não é consciência negra? Porque consciência negra não é inclusão simbólica, é redistribuição de poder. Não existe libertação se quem manda continua o mesmo. Se a estrutura permanece branca, a diversidade é puramente cosmética e isto de fato não é consciência negra.

 

3ª SITUAÇÃO

 Negros que rejeitam sua identidade para sobreviver em ambientes brancos. Isto não é consciência negra. Por exemplo, pessoas negras que minimizam ou evitam discutir racismo para serem aceitas na igreja, na universidade, na empresa, ou influenciadores negros que negam a existência do racismo para agradar um público branco majoritário. Ou quando jovens negros alisam seu cabelo, mudam de fala, roupa ou comportamento para não parecerem negros demais. E o problema não está em alisar o cabelo, mas quando alisa para esconder ou para negar a sua negritude. É esta a questão. E todas essas questões não são consciência negra.

 E por que não é consciência negra? Porque isso é fruto da autoimagem colonizada. Exatamente. O processo psicológico onde o negro internaliza o olhar branco e tenta se adaptar a ele. Consciência negra rompe com a lógica da branquitude e se o sujeito ainda busca caber nela, não houve libertação mental.

 

4ª SITUAÇÃO

Religiões que aceitam negros, mas rejeitam a cultura negra. Não é consciência negra, obviamente. Por exemplo, igrejas ou instituições que acolhem fiéis negros, mas demonizam religiões afro e associam candomblé e umbanda ao mal. Ou líderes religiosos que dizem que Deus não vê cor, mas ignoram ou relativizam o racismo institucional que mata, que exclui e que marginaliza negros no país, ou também comunidades religiosas que recebem negros, mas que se silenciam à ancestralidade africana, apagando tradições, símbolos e histórias negras. Nada disso está relacionado com consciência negra. 

E por que não é consciência negra? Porque consciência negra requer a reconstrução da autoestima espiritual, não a sua mutilação. Se o negro tem que renegar sua herança, sua história, seus símbolos, isso é colonização mental. Se a fé exige embranquecimento, renúncia da sua identidade ou apagamento da ancestralidade, ela nega a essência da consciência negra. 

 

5ª SITUAÇÃO  . Os projetos pedagógicos que falam da África como se fosse um país. Isto não é

consciência negra. Por exemplo, professores, educadores, escolas que dizem que comidas africanas, danças

africanas, línguas africanas ou seja, toda a multiplicidade, a grande diversidade dos povos da África fosse homogêneo. Ou atividades culturais que generalizam culturas distintas, como se fossem uma só. E além disso, há muita desinformação replicada em livros didáticos e também em feiras culturais.

E sabe porque isso não é consciência negra? Porque isso reduz a diversidade africana a um estereótipo infantilizado. É uma forma de redução epistêmica e não de conhecimento. Consciência negra exige

complexidade e não uma caricatura.

 

6ª SITUAÇÃO  Negros que lutam por ascensão individual e chamam isso de libertação. É polêmico,

mas isto que não é consciência negra. Por exemplo, empreendedorismo negro universalizado, que prega: "Você vence sozinho se você quiser, culpando quem não conseguiu ter a mesma ascensão social que ele." ou quando narrativas meritocráticas responsabilizam negros pobres pelas próprias condições sociais, ignorando o racismo estrutural e sistêmico, ou pessoas negras que ascendem economicamente, mas reproduzem o racismo em suas empresas, tratando outros negros como inferiores ou menos profissionais.

 E por que que isto não é consciência negra? Porque a consciência negra não é sobre ascensão individual, é revolução mental, coletiva e estrutural.  Ela rejeita o modelo do “negro exceção ou o negro de estimação ou o negro palatável do sistema.”Libertação individual não liberta o povo e libertação que reproduz opressão libertação. É voltar para a senzala com suas próprias pernas.

 

7ª SITUAÇÃO  Pessoas negras usadas como referência eleitoral, mas sem poder de decisão ou voto. Pois é, isso acontece. Candidatos negros que servem de puxadores de voto, mas não são incluídos nas decisões partidárias. Políticos negros que são chamados apenas para fotos de diversidade em campanhas ou secretários, assessores ou figuras públicas negras que não tenha acesso à formulação de políticas, e sim acesso  apenas à sua exposição pública.

 E por que que isso não é consciência negra? Eu explico porque isso é tokenismo político. O negro aparece, mas não decide. Ele é símbolo e não o sujeito da política. E consciência negra exige poder e não presença decorativa. Se o negro é usado, não representado, isso é, na verdade uma opressão reciclada.

 

8ª SITUAÇÃO  Escolas que celebram cultura afro, mas mantém o currículo eurocêntrico. Pois é,

didático continua começando a história negra na escravidão. E na verdade não é. Professores que fazem oficinas de máscaras africanas, mas nunca estudam filosofia africana, matemática africana,

ciência africana, tecnologia africana. Ou escolas que falam de zumbi, de dandara, mas não ensinam nada sobre panafricanismo. Steve Bico, Lélia Gonzales, Fran Fanon, Carolina Maria de Jesus e outros. Ensinam danças,  mas que essas danças não podem estar desconectadas da realidade do povo negro. Esta é a proposta da consciência negra. Materiais didáticos onde pessoas negras aparecem apenas como vítimas. Isto é

importante e não é consciência negra. Por exemplo, livros que só mostram negros sofrendo, apanhando ou em trabalhos forçados ou como um problema social. Nenhuma imagem de cientistas negros, filósofos negros, médicos negros, lideranças negras

 E por que não é consciência negra? Porque essas apresentações, esses currículos desconectados da crítica da situação do povo negro atual se torna folclorização pedagógica, estetizar a África sem descolonizar o pensamento. E o movimento de consciência negra  afirma que a opressão se sustenta na consciência deformada e o currículo é o principal instrumento dessa deformação e poderia se tornar o principal instrumento de transformação. Isso destrói a autoestima mental, algo que o movimento de consciência negra considera central para a libertação. Quando o negro aparece somente em sofrimento, a educação produz essa inferioridade psicológica, o que é o oposto do que propõe a consciência negra.  Sem mudar o saber, não se muda o mundo e tampouco se muda a mente.

 

9ª SITUAÇÃO  Empresas que contratam negros apenas para cargos de base. Isso não é consciência negra. Por exemplo, departamentos inteiros de limpeza, manutenção e atendimento com maioria negra, enquanto áreas de inovação e tecnologia, estratégia, TI e finanças são quase exclusivamente brancas e não por falta de candidatos negros. Empresas que diversificam o front, mas mantém comitês executivos, conselhos, tomadas de decisão e orçamentos nas mãos de pessoas não negras, ou também programas de estágio que atraem jovens negros, mas sem nenhum mecanismo de promoção, de mentoria ou de retenção, o que acaba criando um funil racial inverso, onde entra negro, mas só sobe pessoas brancas. Setores precarizados como varejo, telemarketing, cheio de pessoas negras, setores de prestígio como o jurídico, TI, a gestão totalmente brancos. Empresas onde negros são usados para cumprir metas de diversidade quantitativa, enquanto metas de poder qualitativo não existem. 

E por que que isso não é consciência negra? É óbvio, porque ocupar a base não altera as estruturas que reproduzem a desigualdade. O movimento da consciência negra ensina que a integração é falsa quando o negro entra no sistema apenas como visitante. Contratar negro apenas na base é aceitar a presença negra sem aceitar o poder negro. É permitir o corpo, mas bloquear a mente e o comando. Isso, na verdade, não redistribui o poder, apenas redistribui a maquiagem. E sem redistribuição de poder não há consciência negra. A empresa usa negros como ponte para resolver problemas que ela mesmo cria estruturalmente. Consciência negra é poder, autonomia, E  agência. onde o negro fala, mas não decide, é só uma vitrine, não há emancipação. Sem negros, nas instâncias máximas de decisão, não existe consciência negra. O que existe, na verdade, é uma decoração institucional.

 

. E não se esqueça que tudo tem história. Tudo é história. A África, os africanos, os povos afrodiaspóricos, a consciência negra tem muita história.

                                                                                                                                     Axé  Dalgiza




ATENÇÃO:Os comentários postados abaixo representam a opinião do leitor e não necessariamente do nosso site. Toda responsabilidade das mensagens é do autor da postagem.

Deixe seu comentário!

Nome
Email
Comentário
0 / 500 caracteres


Insira os caracteres no campo abaixo:








Nosso site Jornal O Impacto Nosso Whatsapp (32) 998112765
Visitas: 1200364 Usuários Online: 59
Copyright (c) 2025 - Jornal O Impacto - Zona da Mata em foco!
Converse conosco pelo Whatsapp!