Há tempos guardado numa gaveta, o novelo de barbante rosa me incomodava. Talvez porque eu sentisse o seu olhar de volta, no desafio lançado: transformá-lo em uma peça, trabalhar sua forma, seu propósito. Assim, comecei um tapete.
Entretanto, para cumprir alguns compromissos, viajei. Bem no meio da execução da peça. Projeto ficou me esperando por dois dias. Ao chegar, tratei de finalizar o trabalho, ponto a ponto. Terminado, arrematei.
Sobrou um pouco de linha. Muito pouco. Não vi serventia na quantidade e já estava destinando o rolo ao lixo, quando pensei em minha avó.
Lembrei em como ela fazia um pequeno retrós em papel, enrolava o restinho da linha e guardava cuidadosamente numa caixinha de madeira. Vó Nininha pensava em usos: bordar um miolo de flor, dar um laço num presente, amarrar o cabelo para afastar o calor...
No interior das Minas Gerais, custava buscar aquilo que se necessitava: era longe, poderia estar em falta, havia que aguardar a encomenda. Minha avó, com onze filhos em casa, tinha usos variados para tudo o que hoje tratamos como descarte.
Como aquele pouco era precioso!
Hoje, pego o celular, compro pela internet e recebo em casa. E me pergunto:
- Quando foi que as pequenas coisas deixaram de ser preciosas?
Izaída Carmo
Nosso Whatsapp (32) 998112765