Nos últimos dias, duas histórias mexeram profundamente com o país. Um jovem em sofrimento psíquico entrou na jaula de uma leoa durante um surto e perdeu a vida. Pouco depois, uma mãe de 32 anos, imersa em uma depressão severa, se despediu da filha mais velha, dopou a caçula e, tomada pelo desespero, tirou a vida dela e a própria.
Apesar de muito diferentes entre si, essas histórias têm algo em comum: elas nasceram de dores mentais que não foram vistas, não foram compreendidas, não foram acolhidas a tempo.
A esquizofrenia, a depressão e tantos outros transtornos emocionais não aparecem de um dia para o outro. Eles vão crescendo em silêncio. Vão ocupando espaço na rotina, no corpo, no pensamento. E, quando não há apoio, tratamento ou escuta, acabam se transformando em situações extremas — algumas vezes, irreversíveis.
Ainda vivemos em uma sociedade que trata sofrimento emocional como fraqueza, exagero ou drama. Muitas pessoas ainda ouvem:
“Isso é falta de coragem.”
“É só tristeza.”
“Você precisa ser mais forte.”
Enquanto isso, por dentro, a dor só aumenta.
O Brasil ainda esbarra na falta de acesso a tratamentos, filas longas, estigmas e preconceitos. Mas há também outro problema, menos falado e igualmente sério: o descaso cotidiano — aquele que acontece dentro das casas, das famílias, dos ambientes de trabalho e, muitas vezes, dentro de cada um de nós.
Ignoramos sinais.
Empurramos a dor para depois.
Fingimos que está tudo bem.
Silenciamos pedidos de ajuda.
E seguimos, mesmo sem condições de seguir.
Em meio a tudo isso, especialistas reforçam um ponto crucial: autocuidado não é luxo. É necessidade básica.
Não se trata apenas de terapia e medicação — embora ambos sejam fundamentais. Fala-se também de:
reconhecer quando algo não vai bem,
pedir ajuda sem medo,
respeitar limites,
descansar quando o corpo e a mente pedem,
falar sobre o que dói,
não carregar tudo sozinho.
Cuidar da saúde mental é um ato de honestidade com a própria vida. É o movimento de evitar que os sinais pequenos se transformem em tempestades.
As tragédias recentes escancaram um pedido coletivo por atenção: é hora de tratarmos a saúde emocional com a importância que ela sempre teve, mas que por muito tempo foi escondida.
A comoção causada por esses episódios não pode durar apenas alguns dias. É preciso transformar choque em reflexão, e reflexão em mudança.
Quantas histórias como essas ainda precisam acontecer para entendermos que sofrimento emocional é real, urgente e digno de cuidado?
Enquanto não encontramos essa resposta, fica uma certeza:
cuidar da mente não é sobre fraqueza — é sobre continuar vivo, presente e inteiro.