Hoje vamos refletir sobre estas importantes questões. E como é um assunto vasto,será dividido em partes. Essa será a parte I
Quando esse tema surge, algumas pessoas imediatamente pensem: "Mas eu não fui escravocrata” ou “Eu sou uma pessoa boa, nunca discriminei ninguém".Essas reações são compreensíveis, mas nos afastam do ponto principal: O Privilégio Branco não é a moralidade individual ou pessoal, mas um sistema histórico que produz vantagens para uns e desvantagens para outros, independentemente da intenção individual. E isso não é teoria, é mensurável, repetível e historicamente documentado.
Como afirma a pesquisadora Francis Kendall, que é especialista em relações raciais e diversidade, o privilégio branco é difícil de ver para aqueles que nasceram com acesso ao poder e aos recursos. E ela usa uma imagem muito poderosa para quem está dentro do privilégio: “Ele é tão natural quanto a água é para o peixe.”
E isso leva a uma questão essencial: Se o privilégio é invisível para quem o possui, como então analisá-lo? Precisamos reconstruir historicamente como ele foi criado porque nada disso é natural, nada disso é biológico. Tudo isso é uma construção muito humana, cultural, jurídica, religiosa e política.
Mas o que é privilégio branco?
É importante começar pelo conceito, porque sem isso qualquer reconstrução histórica fica solta. Racismo e privilégio não são a mesma coisa e isso precisa ficar claro bem aqui no início. Racismo, no sentido comum costuma ser entendido como atos individuais de hostilidade, de preconceito ou de discriminação, mas isso é apenas a superfície. Já privilégio branco, por outro lado, não depende de ações individuais. Ele funciona como um conjunto de benefícios estruturais que acompanham quem é socialmente identificado como branco. O privilégio branco é um pacote invisível de ativos não merecidos com os quais, a pessoa considerada branca, pode contar todos os dias. São como sistemas invisíveis, conferindo domínio a um grupo."
Racismo é um sistema e não um sentimento. E privilégio branco é o
lado positivo, digamos assim, ou adocicado desse sistema. As vantagens
não são merecidas, não são conquistadas; são herdadas. O privilégio branco opera mesmo quando ninguém quer que ele opere. E é fundamental reforçar aqui algo muito didático. Não é necessário que uma pessoa branca deseje o privilégio para ela recebê-lo. Ele funciona porque a sociedade foi organizada para que funcione exatamente assim. Privilégio é aquilo que a sociedade me dá, não aquilo que eu escolho.
A questão não é se eu tenho privilégio, mas apenas se vou desafiar ou vou sustentar o status quo. Esse aqui é o ponto. O privilégio não é um sentimento, ele é um fato social. E para entender o privilégio branco hoje, precisamos voltar ao momento em que ser branco foi inventado. Pensa comigo, se o privilégio nasce da branquitude, então precisamos entender de onde veio essa ideia. E ela não é antiga, não é natural, não é universal. Ela foi inventada em momentos específicos e com interesses específicos.
Para que o privilégio branco exista, primeiro foi preciso criar a ideia de raças humanas. Isso não é uma verdade da biologia, é uma criação da política, da religião, da ciência racializada.
Antes do século XV, europeus não se identificavam como brancos. E é muito importante que isso fique claro. A identidade branca não existia como categoria fundamental. Mas como então os europeus se definiam? Cristãos, católicos, protestantes, súditos de reinos específicos, latinos, godos, saxões, francos ou qualquer outra etnia. Mas o conceito branco não era uma identidade coletiva. A historiadora Neil Evantin que é a autora do livro A história das pessoas brancas, ela afirma o seguinte: "Raça é uma ideia e não um fato." E ela ainda afirma que os europeus não nasceram brancos. Eles se tornaram brancos quando precisaram justificar a escravidão de africanos e a colonização de povos não europeus. E essa frase aqui é a chave interpretativa para nós.
Mas e a palavra negro? O nascimento da categoria negro se tornou sinônimo de escravo ou escravizado. A palavra negro não nasceu de forma racial, a palavra foi relacionada a um rio africano conhecido como Níger. E esta nomenclatura, pela primeira vez, foi utilizada pelos romanos para se referir aos povos que viviam às margens do rio Níger. E eles chamaram estes povos de Nigris, ou seja, da cor da noite, de acordo com a raiz indoeuropeia desta palavra, a palavra negro era apenas uma palavra para descrever a característica de uma cor como a cor da noite.
Não havia nada de racial nesta palavra, nessa expressão, mas no século XV, com a expansão portuguesa, o cronista Gomes Eanes de Zurara, um português, no ano de 1444, registrou no livro Crônicas do Descobrimento da Guiné que os africanos capturados eram negros e que a terra dos negros era fonte legítima de escravizados. É importante entender que aqui ele chama de negros todos aqueles povos abaixo da região subsaariana. E é Zurara que vai fazer, pela primeira vez neste período, uma fusão fatal de cor, condição e destino.
Do adjetivo pele escura, ele cria o substantivo, o negro. E do substantivo, ele cria a categoria social, o escravo negro. Sem isso, não haveria privilégio branco, mas como eu escrevi acima, a categoria branco foi inventada.
Porque não existe branco antes do encontro colonial. A categoria só faz sentido quando há um outro ser racializado. Precisou haver o preto para ver o branco e o branco para ver o preto. O branco só existe ao lado do preto.
E a partir daí, leis inglesas e coloniais vão acabar substituindo termos como cristão por branco. E é assim que se cria um privilégio legal sobre a origem do termo branco quanto sobre a origem do termo negro.
Mas agora que nós já entendemos como a ideia de branco e negro foi construída, precisamos aqui analisar como essa construção foi reforçada por pelo menos três grandes pilares: religião, a arte e a ciência dos séculos XVIII e XIX.
No próximo artigo pretendo explicar como esse tripé contribuiu de forma contundente sobre essa afirmação e quais foram os impactos na vida da pessoa negra/preta.
Um abraço Dalgiza
Excelente reflexão! Que suas palavras levam a mudanças.
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