Falo como profissional, mas também, e talvez principalmente, como mãe. Mãe de dois autistas que cresceram enfrentando um mundo que, muitas vezes, não foi feito para eles. Um mundo barulhento, apressado, imprevisível, um mundo onde esperar pode ser apenas uma pausa para alguns, mas para eles sempre foi um desafio que o corpo e a mente não conseguem controlar.
É por isso que, quando digo que o atendimento à pessoa autista precisa ser prioritário, não falo de privilégio. Falo de humanidade e de cuidado, de enxergar aquilo que muita gente não vê.
A espera em um ambiente público é cheia de detalhes que passam despercebidos para a maioria das pessoas: o ar-condicionado fazendo um ruído quase inaudível, a luz fluorescente piscando sem parar, o perfume forte de alguém ao lado, o eco de conversas misturadas, o barulho de talheres, passos, portas. Para quem tem um cérebro neurotípico, tudo isso pode parecer mínimo. Para uma pessoa autista, é um bombardeio constante.
Não é frescura, não é falta de educação.
Não é “mimar”!
É dor, é sobrecarga de estímulo entrando sem filtro, sem pausa, sem espaço para respirar.
E então vem a espera…
A fila que não anda.
O relógio que parece travado.
A ansiedade que cresce.
O corpo que não aguenta.
O colapso que chega, não por escolha, mas por limites neurológicos reais.
Quando uma pessoa autista recebe atendimento prioritário, estamos oferecendo mais do que um lugar na frente da fila. Estamos oferecendo acolhimento. Estamos evitando sofrimento, estamos tornando possível algo que, sem esse cuidado, se torna quase insuportável.
Atendimento preferencial não é gentileza, atendimento prioritário é necessidade.
É por isso que eu insisto, explico, educo e falo quantas vezes for preciso: dar prioridade ao autista é respeitar a forma como ele existe no mundo. É reconhecer que diferenças sensoriais não são invisíveis, elas apenas não gritam para quem não vive com elas todos os dias.
Eu aprendi isso como profissional, mas senti isso como mãe.
E é esse sentimento, esse amor, essa responsabilidade, essa luta diária, que faz com que eu continue defendendo que a prioridade não é favor. É inclusão, é justiça, é dignidade.
Porque quando cuidamos do autista com prioridade, nós cuidamos de toda a sociedade. Acolhemos, humanizamos e tornamos o mundo mais possível.
Karla Coelho
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