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QUANDO A COR NÃO PESA: OS SILÊNCIOS DA BRANQUITUDE

Parte II

Publicada em 14/12/2025 às 11:23h - 303 visualizações - Dalgiza Rufino Marques


QUANDO A COR NÃO PESA: OS SILÊNCIOS DA BRANQUITUDE



Você já parou para pensar por que alguns começam sempre na frente? 

 Parou pra pensar quem decide o que consideramos como normal? 

Que nem toda tradição é justa? 

 

No  artigo da semana anterior vimos o  que é Privilégio Branco e como essa idéia foi construída. Hoje vamos refletir sobre o papel da Religião, da Arte  e da Ciência na construção dos privilégios da branquitude. Esses três pilares deram ao privilégio branco a aparência de naturalidade. 

Mas como a Ciência, a Religião e Arte fabricaram a superioridade branca? Aqui precisamos mergulhar em alguns conceitos religiosos, principalmente o da teologia da maldição de Cam. A passagem bíblica em  Gênesis 9, a partir do versículo 19, não fala de cor de pele, mas séculos depois alguns comentaristas cristãos europeus  reinterpretaram o texto para justificar a escravidão dos africanos. O jesuíta Alonso de Sandoval,  no século XVII,  escreveu o seguinte: DEUS PINTA OS FILHOS DE MAUS PAIS COM UM PINCELO ESCURO. Foi  uma formulação brutal, mas muito influente.

E não somente foi criar uma ideia de que esses povos eram amaldiçoados esubalternos de acordo com a divina conveniência, mas  também tiveram a operação de inventar um Jesus branco. Historicamente, Jesus era um homem semita do Oriente Médio do século I. Uma pele um pouco mais escura, cabelos escuros. Porém, artistas europeus influenciados por textos apócrifos, como a carta de Lentulos,  passaram a representá-lo de pele clara, olhos claros, cabelos longos e ondulados. O historiador Edward Bloom, em sua obra A COR DE CRISTO, afirma que essa imagem acabou associando Cristo a lógica do império e serviu para justificar a opressão racial. Ou seja, se Deus é retratado como branco, o branco se torna mais próximo do divino. E essa é uma das bases psicológicas do privilégio branco: o embranquecimento de Jesus Cristo. 

Mas não podemos ignorar o papel que a ciência teve para construção da ideia de superioridade racial branca.

E precisamos entrar num ponto crucial da narrativa histórica: a ciência moderna como engenharia da supremacia racial. E esse ponto é muito sensível, porque na formação do senso comum ainda existe a ideia de que a ciência é neutra. Mas o que os estudos contemporâneos demonstram, especialmente obras como do Stephen J. Gold e vários outros e outras, é que a ciência do século XVIII e XIX foi usada intencionalmente para legitimar hierarquias raciais e consolidar o privilégio branco como um fato biológico. Talvez o nome mais importante que aparece nessas primeiras classificações da humanidade seja o de Calvon Lineu, como ficou conhecido no Brasil, quando ele publicou o livro  SISTEMA NATURAL,  uma obra central na taxonomia moderna.

Até aí tudo bem. O problema começa quando ele decide aplicar a mesma lógica classificatória à humanidade. E o que poderia ser apenas um registro descritivo, acabou se tornando uma hierarquia moral. Lineu não só separou raças, mas atribuiu características psicológicas e comportamentais. Ele descreveu a humanidade dividida em  tipos: o homem europeu branco, o homem americano avermelhado, (se referindo aos povos indígenas daí a expressão pele vermelha) o homem asiático amarelo, e o homem africano negro.

Lembrando que Lineu nunca saiu da Suécia e foi através de cartas e relatos de viajantes que ele criou este tipo de classificação de todos os povos da humanidade baseados em origem geográfica e cor.

Mas como se isso não bastasse, começa a  relacionar com aptidões morais. Por exemplo, europeus brancos são sanguíneos, inventivos, engenhosos, regidos por leis, enquanto  os negros africanos, segundo ele, são indolentes, preguiçosos, negligentes, regidos pelo capricho. 

E aqui está o momento em que a biologia se torna política. O privilégio branco que antes se apoiava na religião e no colonialismo, agora ganha um verniz científico. E a chave didática aqui é que a classificação científica  produziu um mundo hierarquizado.

Outro nome que nós não podemos ignorar é o de Johan Frederick Blumembak. Em 1795, este naturalista alemão  publicou uma obra das variedades humanas. Esse termo aparentemente neutro tem uma origem reveladora. Blumembak acreditava que o crânio mais belo pertencia ou pertencera a uma mulher da Geórgia, da região do Cáucaso. Ele afirma que aquela forma craniana representava o ideal original da humanidade e que as demais raças seriam degenerações a partir desse modelo. e aqui  nasce um padrão estético que domina o ocidente até hoje:  pele clara, nariz fino, traços europeus, formato craniano supostamente harmonioso. Blumembak declarou o seguinte: "A RAÇA CAUCASIANA  APROXIMA-SE DO IDEAL DE BELEZA DESDE OS TEMPOS ANTIGOS.

Mas não ficou apenas nele. Nos Estados Unidos, no século XIX, a defesa da escravidão precisava de argumentos científicos. E é nesse contexto que surge Samuel George Morton, um médico da Filadélphia, autor de uma obra consagrada chamada CRÂNIA  AMERICANA. (não é crânio é crânia mesmo rsrsrs). Morton media capacidades cranianas na tentativa de provar que brancos tinham maiores capacidades intelectuais, que indígenas ficavam no meio termo e que negros tinham menor volume craniano.

Décadas depois, Jay Gold, em sua obra: “ A FALSA MEDIDA DO HOMEM” demonstra que os dados foram absolutamente e absurdamente manipulados. Que as medidas foram ajustadas conforme o resultado desejado, ou seja, os métodos eram inconsistentes. 

E mesmo assim as conclusões falsas de Samuel George Morton foram fundamentais para sustentar discursos raciais na política, na medicina e até na educação. A mensagem aqui é direta. Quando o poder escolhe o que quer provar, a ciência acaba virando instrumento de privilégio.

 

Na próxima semana vamos abordar  como a tese do embranquecimento no Brasil  atingiu a negritude. 

 

Um abraço  Dalgiza




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