Parte III
No artigo da semana anterior explicamos como a Ciência, a Arte a Religião ajudaram a fabricar uma superioridade branca, onde o privilégio
branco deixa de ser apenas ideologia e acaba se tornando estado. E aqui no Brasil, isso foi aplicado depois da abolição da escravidão, porque é nesse período, que o privilégio branco realmente se consolida. como um sistema moderno.
A abolição da escravidão não destruiu o sistema racial, ela apenas o reorganizou. É como se a escravidão tivesse deixado de ser um modo de produção e passado a ser um modo de estrutura social.
E como isso aconteceu?? Vou detalhar melhor. A abolição de 1888, não
foi acompanhada de acesso à terra, de acesso à escola, de políticas compensatórias, de políticas de inserção laboral, de garantia de direitos civis. Ao contrário, o Estado financiou a imigração europeia, dando privilégio aos
europeus nesse quesito.
Universidades e escolas superiores permaneceram brancas por décadas. Cargos públicos foram ocupados majoritariamente por brancos ou pessoas de peles mais claras. Essa mistura de abandono programado, gerou
uma vantagem estrutural acumulada para pessoas conhecidas ou tidas socialmente como brancas.
É privilégio branco em sua forma mais profunda, a vantagem herdada do passado que acaba organizando o presente.
Já no Brasil do século XX, o conceito de democracia racial, acabou se tornando um elemento solidificador na sociedade brasileira. Gilberto Freire, popularizou a ideia de que o Brasil vivia uma harmonia racial única. O mundo acreditou nisso e essa narrativa foi extremamente útil para manter privilégios. A lei Afonso Arinos foi a primeira legislação brasileira contra a discriminação racial, porém tratava o racismo como mera contravenção, condenava o ato visível, mas não tocava nas estruturas que garantiam o privilégio branco.
O sociólogo Florestan Fernandes foi direto ao dizer que a abolição transferiu o negro da escravidão para a marginalidade. E nessa
marginalidade o privilégio branco se naturalizou como ordem social. Ele não precisa de leis específicas. Ele funciona através de padrões culturais, de decisões institucionais, de algoritmos, de heranças econômicas, de
estereotótipos de acesso diferenciado a oportunidades. Veja alguns dados e exemplos.
Na questão da segurança pública. Quem é o suspeito? Quem é o cidadão? Dados do Fórum de Segurança Pública Brasileiro mostra que
76% das mortes por intervenção policial são de pessoas negras.
. Por quê? Porque o privilégio branco opera na presunção de inocência.
Um homem branco andando em bairro nobre é um morador apenas. O homem negro andando em bairro nobre é tratado como suspeito.
Um outro lugar onde podemos observar o privilégio é o mercado de
Trabalho. Pessoas brancas são super representadas em cargos de liderança
aqui mesmo no Brasil. Mulheres negras são o grupo com menor salário médio do país. A antropóloga Frence Windens, chama isso de vantagem invisível. Brancos não se preocupam com neutralizar seus nomes, seus cabelos ou seus sotaques. O privilégio branco, opera no que não precisa ser pensado supostamente.
A escola também é um lugar muito importante. Pesquisas de psicologia educacional mostram que professores percebem comportamentos idênticos como mais agressivos quando realizados por crianças negras. Famílias negras são as mais questionadas sobre disciplina. Alunos negros têm menos expectativa de serem indicados para cursos avançados.
Já na saúde, o racismo institucional se torna um risco de vida. Estudos brasileiros também indicam que negros recebem menos anestesia, menos analgésicos para não sentirem dor, que tem tempo de consulta menor, que são mais frequentemente acusados de não colaborar e que também são subdiagnosticados em diversas áreas. Mesmo em modelos de atendimento padronizado, a cor da pele ela influencia decisões clínicas. Isso é privilégio branco como acesso a cuidado adequado.
E na vida cotidiana não é diferente. Reflita comigo e responda para si mesmo:
• Você pode entrar em uma loja sem ser seguido?
• Você pode fazer compras sem que presumam que você não tem como pagar?
• Você pode falhar sem que sua falha seja atribuída à sua raça?
Esses são apenas alguns exemplos simples, mas fundamentais para mostrar que o privilégio branco não é apenas acúmulo
de riqueza, é conforto estrutural, é uma construção histórica.
Como podemos então enfrentá-lo? Não existem respostas simples, mas existem direções possíveis.
O primeiro passo é ver aquilo que a pesquisadora Mcintosh dizia: "Fui ensinada a não ver meu privilégio. O privilégio branco só pode ser enfrentado quando se torna visível".
Um segundo passo seria entender que o privilégio não é culpa individual. Privilégio não é escolha, não é caráter, não é moral.
Uma terceira questão é o que eu faço se tenho privilégio? Decido desafiar ou sustentar o status quo? Isso tira a conversa do campo da culpa e leva pro campo da responsabilidade histórica.
Um quarto passo seria reconhecer que a desigualdade racial não se desfaz sozinha. Ninguém desfaz estruturas de 500 anos apenas sendo gentil. É necessário política pública, redistribuição de oportunidades, revisão
de currículos, diversidade institucional real, mudança também na cultura
profissional, na empresa e até mesmo mudança midiática.
Um quinto passo, sem dúvida alguma, é construir uma interpretação crítica da própria história. Afinal, o privilégio branco depende de histórias mal contadas. Recontar essa história com rigor, com honestidade, com consciência é desarmar a estrutura que protege este privilégio
E o último passo é entender que nomear não é atacar, é libertar. Nomear o privilégio branco não é ficar acusando somente indivíduos, é desnudar, é revelar um sistema. E sistemas só mudam quando são expostos, quando são analisados, quando são enfrentados.
Daí a necessidade de consciência negra. Ela entra como chave interpretativa e sobretudo como chave política. "Consciência negra é a necessidade de devolver ao povo negro o senso de dignidade e valor.
Mas por que isso tem a ver com privilégio branco? Tem tudo. Porque o privilégio branco não é apenas um sistema de vantagens acumuladas por pessoas brancas. É também um sistema de destruição deliberada da dignidade negra, um processo contínuo de inferiorização simbólica e também material, uma pedagogia diária do não lugar.. Define o padrão humano, define o que é beleza, define o que é competência, define quem merece confiança, define quem inspira medo, define quem deve ser protegido e quem deve ser descartado. Define o que é neutro e esse neutro tem cor.
Por isso, quando se discute privilégio branco, não é procurando culpados individuais e sim nomeando estruturas para que elas possam ser desmontadas. É reorganizar a escola para que crianças negras não sejam vistas como problema. É reorganizar a mídia para que corpos negros não sejam exceções. É organizar o mercado de trabalho para que competências sejam reconhecidas independentemente de aparência. É reorganizar a segurança pública para garantir que as vidas negras tenham o mesmo valor de vidas brancas. É reorganizar a política para que representatividade não seja apenas símbolo, mas poder real.
Essa é a responsabilidade coletiva, não apenas negra, mas
sobretudo branca. É construir um país onde a humanidade de uns não dependa da desumanidade de outros. É, no fundo, libertar a todos da mentira histórica que acabou criando hierarquias raciais e que ainda hoje define quem pode sonhar e quem precisa sobreviver.
A grande pergunta é: O que cada um de nós está disposto a fazer para desmontar o privilégio branco e construir uma sociedade que não precise dele?
Um abraço Dalgiza
Parabéns professora ,uma grande reflexão histórica e uma pergunta muito pertinente. Seus textos sempre me fazem repensar e ver com um pouco mais de atenção qualquer atitude.
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