Chamam-nos de fortes como quem fecha a porta e vai embora tranquilo. Chamam a mulher negra de forte como quem se livra de uma responsabilidade. No entanto, é um elogio que dispensa cuidado porque a força da mulher negra não nasceu dela. Foi exigida. Foi treinada no corpo das que vieram antes. Forte foi a avó. Forte foi a mãe. Forte é a filha que aprende cedo a não cair em público.
A força não foi escolha. Foi herança. Herança de açoite, de silêncio, de ausência de cuidado. A mulher negra é forte porque precisa ser. Forte para trabalhar. Forte para sustentar. Forte para criar. Forte para aguentar. Todos dizem: “Ela aguenta.” E quando ela cai, dizem que ela se levanta. Rápido. Sozinha. Sem alarde. Não perguntam se dói. Não perguntam quem ajuda. Não perguntam quem fica. Ser forte virou sentença. A força atribuída à mulher negra funciona como uma desculpa coletiva.
- Nunca colo. Se ela é forte, não precisa de colo.
- Nunca pausa. Se ela é forte, não precisa de pausa.
- Nunca descanso. Se ela é forte, não precisa descansar nem ser cuidada.
A força que nos atribuem serve para aliviar quem não quer cuidar. Serve para normalizar o cansaço. Mas toda força cansa. Até a terra mais firme racha. Até o corpo mais resistente pede chão. E cobra. Nessas horas a mulher negra chora baixo. No banheiro. No escuro. Seca o rosto. E volta forte.
Mas a pergunta não é sobre força. Nunca foi. A pergunta é outra: QUEM AUTORIZOU A MUHER NEGRA A DESCANSAR???
Essa pergunta realmente expõe que, na prática
o descanso não é tratado como um direito para a mulher negra
mas como algo que precisa ser permitido. Na nossa sociedade, descansar é visto como: Merecimento, recompensa, luxo. A mulher negra, ao descansar, é vista como: Preguiçosa, fraca, irresponsável, “relaxada” A pergunta denuncia isso.
Quando dizem “você é forte”, o que se está querendo dizer é: “Você aguenta. E se aguenta, não precisa parar. E se não pára, não precisa ser cuidada.”
A pergunta QUEM AUTORIZOU A MUHER NEGRA A DESCANSAR??? desmonta esse pacto silencioso, mas não acusa a mulher negra. Ela acusa: o racismo estrutural, o machismo, a herança da escravidão, a lógica do trabalho que explora alguns corpos mais que outros
Eis a pergunta correta:
Quem decidiu que o cansaço da mulher negra não importa?
Um abraço, Dalgiza
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