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A solidão da mulher negra é um projeto

Publicada em 21/04/2026 às 08:43h - 415 visualizações - Dalgiza Rufino Marques


A solidão da mulher negra é um projeto
 (Foto: Divulgação )



Há um equívoco persistente quando se fala da solidão da mulher negra: tratá-la como acaso, destino ou falha individual. Não é. A solidão da mulher negra não nasce do vazio — ela é construída. É projeto.

Não se trata da falta de pessoas ao redor, mas da ausência de reconhecimento, de cuidado genuíno, de presença que permanece. Muitas mulheres negras estão cercadas, desejadas, requisitadas — mas não escolhidas. Existe uma diferença profunda entre ser vista e ser valorizada. Essa solidão é resultado de uma estrutura que historicamente desumaniza, hipersexualiza e invisibiliza. Não é sobre não haver amor no mundo. É sobre para quem ele é direcionado.

O afeto, embora pareça universal, não é distribuído de forma igual. Existe uma hierarquia silenciosa que define quem é digno de amor público, de compromisso, de cuidado. Mulheres negras, muitas vezes, são colocadas fora desse imaginário. Enquanto algumas são educadas para esperar flores, outras aprendem cedo a se contentar com migalhas. O afeto, então, deixa de ser direito e passa a ser privilégio — e como todo privilégio, tem cor, classe e padrão.

Há um padrão cruel: a mulher negra é frequentemente desejada, mas raramente assumida. É corpo antes de ser sujeito. É intensidade sem continuidade. Muitos se aproximam em segredo, mas recuam à luz do dia. Esse desejo sem compromisso não é inocente — ele reforça um lugar histórico de exploração emocional e afetiva. Não é coincidência, é repetição.

Diante de tantas frustrações, muitas mulheres negras constroem uma nova forma de existir: deixam de esperar. Não por falta de esperança, mas por excesso de consciência. Aprendem a se bastar, a se proteger, a não depositar no outro aquilo que constantemente lhes é negado. Mas há um custo nisso. A autonomia que liberta também pode endurecer. E ninguém deveria precisar se tornar fortaleza para sobreviver ao amor.

Quem lucra com a solidão da mulher negra?

Essa é a pergunta mais incômoda — e talvez a mais necessária. Porque quando algo é estrutural, alguém se beneficia. Lucra quem mantém padrões estéticos excludentes. Lucra quem perpetua narrativas que colocam a mulher negra como forte demais para ser cuidada. Lucra quem usufrui do seu afeto sem oferecer reciprocidade. Lucra um sistema que prefere mulheres negras resilientes a mulheres negras amadas.

Falar sobre isso não é vitimismo — é denúncia. É dar nome ao que por muito tempo foi silenciado. A solidão da mulher negra não é falha pessoal, nem falta de sorte. É construção social. E tudo aquilo que é construído, também pode — e deve — ser desconstruído.

Que esse debate incomode. Que ele atravesse. E, sobretudo, que ele transforme.

 

Um abraço Dalgiza




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2 comentários


Maria Inês Garcêz Fonseca

21/04/2026 - 21:52:41

Querida professora Dalgiza, parabéns por ter coragem, sabedoria, delicadeza para tratar um assunto tão sério. Obrigada por nos abrir os olhos, nos iluminar com seu brilho maravilhoso.


Andrea

21/04/2026 - 09:35:56

Enquanto não houver amor e fraternidade na mente e nas atitudes ainda haverão muitas divisões e indiferenças...parece estrutural no ser humano mesmo.Infelismente.😢


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